Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?|Crítica

Já começo esse texto (minha primeira resenha aqui no Canal FUSI) perguntando para você, caro leitor: já viu um livro com um título tão interessante como esse?! Eu adorei o livro só pelo título e teria ficado com vontade de ler mesmo se não soubesse da importância cultural da obra por ter dado origem ao filme Blade Runner (1982), um clássico da ficção cientifica dirigido por Ridley Scott e estrelado por ninguém menos que Harrison Ford (que terá uma continuação dirigida por Denis Villeneuve, com lançamento previsto para outubro de 2017, chamada Blade Runner 2049).

Para quem não sabe, o autor de Androides sonham com ovelhas elétricas? é o norte-americano (1928-1982) Philip K. Dick. Ele é considerado um dos mais importantes autores de ficção cientifica do século XX. Vários trabalhos dele foram adaptados para cinema, como por exemplo, O Vingador do Futuro com Arnold Schwarzenegger e Minority Report, com Tom Cruise. Existe um livro só com os contos que foram adaptados para o cinema, chamado Realidades Adaptadas. A editora que tem os direitos dos livros dele aqui no Brasil é a Aleph e estão fazendo um ótimo trabalho, tanto na tradução, quanto no projeto gráfico dos livros. Todos dele possuem o mesmo tipo de capa, tipografia e outros elementos que valem cada centavo investido. Além disso ficam lindos na estante e ainda mais lindos depois de lidos. Para conhecerem um pouco mais sobre a obra dele, sugiro um podcast bem bacana que têm sugestões de por quais livros começar a ler Philip K. Dick: https://www.nexojornal.com.br/podcast/2017/07/14/Como-come%C3%A7ar-a-ler-Philip-K.-Dick.

O Androides sonham com ovelhas elétricas? foi escrito em 1968. Esse ano foi bem complexo, para dizer o mínimo. “O ano que não terminou”. Revoltas, revoluções, guerras, paz, amor, músicas, livros. Ideias explodindo cabeças de todas as maneiras possíveis. Esse livro é filho desse contexto histórico, assim como seu autor. “Os homens e mulheres se parecem mais com seu tempo do que com seus pais”, como já dizia meu querido Marc Bloch, historiador francês da primeira metade do século XX.

O livro se passa no fim da Guerra Mundial Terminus e quem podia sair da Terra foi para outros planetas que já podiam ser habitados, tipo Marte. No nosso planeta destruído só ficaram os que não queriam ir e os que não podiam ir. Esses eram divididos em dois grupos: os Normais, que não tinham sido atingidos pelos problemas da radiação; e os Especiais, que foram biologicamente rebaixados de status, mas que ainda conseguiam (um ou outro) sobreviver em meio a Poeira. Essa, algo que acredito ser um resíduo da Guerra, dizimou inúmeras espécies animais e vegetais.

Aí entra a questão das “ovelhas elétricas” do título. O personagem principal, Rick Deckard, caçador de recompensas do departamento de policia de São Francisco, possui uma ovelha elétrica, pois não tem dinheiro suficiente para comprar uma de verdade. Nesse mundo os animais de verdade são extremamente raros e por isso extremamente caros e valorizados.  Deckard cuida muito de sua ovelha elétrica. Não por amor ou algo parecido, mas para que seus vizinhos não descubram que ele possui um animal que não é de verdade. Isso é muito vergonhoso. É interessante notar essa questão da ética com os animais colocada em vários pontos ao longo do livro, outro elemento social que estava cada vez mais em voga no momento em que a obra foi produzida.

Como não podia deixar de ser, existem os androides. Os primeiros são fáceis de diferenciar de nós humanos, mas com o passar do tempo, como sempre acontece, a tecnologia evolui e fica cada vez mais complicado saber quem é quem. É isso que nosso personagem principal faz. Ele identifica por meio de um teste, chamado “escala Voigt-Kampff”, os androides e “aposenta” os andys que vagam pela Terra, pois eles foram feitos para auxiliar os colonos humanos na exploração dos outros planetas.

Para descobrir se um ser é um androide ou um humano, ele aplica um teste para medir diversas reações do “sujeito”. Por meio de diversas questões, várias relacionadas aos animais e várias relacionadas a um dos nossos instintos mais básicos, sexo, ele vai medindo o tempo e a intensidade dessas reações. Mas a principal questão para se diferenciar um humano de um androide é a falta de empatia e compaixão do androide. Dependendo do modelo, como no caso o Nexus-6, ele quase consegue imitar esses sentimentos. Mas o tempo de reação é maior do que no ser humano.

Pela metade do livro, Deckard já começou sua caça aos androides fugitivos que dá a liga ao enredo. A leitura flui muito bem, não era para se esperar menos de uma história dessas. Os personagens são bem construídos, especialmente a dupla de androides que “sobra” na caçada de Deckard: Pris e Roy, interpretados respectivamente no filme de 1982 por Daryl Hannah e Rutger Hauer.

As duas mídias possuem diferenças bem visíveis, mas compreensíveis. No livro, Deckard é casado e sua esposa participa da trama desde o início. O elemento religioso (combinado com o midiático), o Mercerismo, tão importante na obra de Philip K. Dick não aparece no filme. Já no livro, é um campo que permeia toda a narrativa. Outra mudança é em um dos personagens principais de ambas as histórias: J. R. Isidore (livro) e J. F. Sebastian (filme), o elo dos “andys” com a humanidade.

De qualquer maneira, dificilmente a adaptação fica à altura da obra que a originou, apesar de que no caso o filme é excelente. Um dos meus preferidos, com certeza. Se transformou em um clássico, com sua trilha sonora maravilhosa (composta por Vangelis) e clima cyberpunk noir que influenciou diversos filmes posteriormente. Um ponto interessante é que o autor acompanhou o processo de produção do filme na década de 1980. Ele faleceu alguns meses antes do filme ser lançado. Em sua última entrevista ele falou sobre a relação entre as duas obras:

Depois que acabei de ler o roteiro, peguei o livro e dei uma espiada geral no texto. Os dois materiais se reforçam mutuamente. De forma que a pessoa que começasse lendo o livro iria curtir o filme e que quem visse antes o filme iria gostar de ler o livro”.

Eu já assisti o filme várias vezes (em algumas versões diferentes) e gostei muito do livro. Fiz a experiência de assistir logo depois de terminar a leitura e foi muito interessante. As obras se completam, especialmente no sentido do entendimento das questões maiores da história. Para quem gosta do filme, ou para quem gosta de uma boa história, recomendo fortemente esse livro.

Estou bem interessado no que a continuação do Blade Runner poderá mostrar. Só vi o primeiro trailer e umas imagens promocionais, mas gosto de outros trabalhos do diretor (por exemplo, A Chegada) e vou com a mente aberta para o cinema e espero ser positivamente surpreendido.

Fecho a resenha com uma frase do filme, que não tem no livro, mas que acho uma das mais bonitas já escritas e que casa muito bem com o espírito das duas obras:

All those moments will be lost in time, like tears in rain”.

Por: Rui Dias

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