As engrenagens por trás de Laranja mecânica

Laranja mecânica é considerado um dos clássicos distópicos junto com outras grandes obras como 1984, Fahrenheit 451 e Admirável Mundo Novo, que apesar de serem polêmicos sempre vêm com uma fragrância peculiar e ao mesmo tempo reflexiva do quão próximos estamos do completo desastre. Escrito por Anthony burgues, que além de escritor foi também dramaturgo, compositor e linguista, o livro conta a estória do jovem Alex, um sociopata funcional que, apesar da pouca idade, consegue nos mostrar o quanto um pequeno grupo de delinquentes consegue se “divertir” em noites repletas de violência, estupros e roubos ocasionais, enquanto nós somos ambientados a uma sociedade futurista subordinada a um estado totalitário e igualmente brutal. O livro foi também inspiração para o aclamado  filme de mesmo nome lançado em 1971.

Dividido em três partes, a selvageria é narrada pelo próprio protagonista, que em diversas vezes conversa com o leitor, seja vangloriando-se de suas brilhantes ideias ou simplesmente tentando mostrar seu ponto de vista. O mais interessante do livro é a imersão nele colada, não só pela maneira como ele é narrado, mas também pelo uso constante da complicada Nadsat, uma gíria com origens no russo e no inglês, falada exclusivamente por adolescentes desse universo caótico.

O tom pesado e doentio do livro não é meramente uma história baseada em suposições, já que burgues o escreveu em uma época complicada de sua vida, onde um câncer o deixará frente a frente com a morte, uma experiência tão desprezível quanto a de sua primeira esposa, que foi estuprada por quatro soldados americanos que, talvez por coincidência, é também o número de garotos da gangue de Alex.

Na primeira parte do livro somos apresentados a um mundo aparentemente livre de qualquer restrição à violência, a não ser uns poucos guardas que transitam meio sem jeito pela cidade, vemos isso através da vivência de vários grupos de crianças e adolescentes que fazem o que querem durante a noite, e apesar do desleixo da polícia, Alex é enfim capturado.

A segunda e terceira parte do livro permeiam sobre qual é o real significado de liberdade depois que nosso anti-herói é submetido ao experimento de Ludovic, uma terapia que promete reabilitá-lo social e psicologicamente, eliminando sua conduta desviante. Ao longo do livro não sabemos mais qual posição ao certo iremos tomar, porque apesar do seu histórico, vemos que Alex não é um jovem tão ruim assim, e que talvez ter ficado na prisão tivesse sido uma escolha melhor, o que, ao decorrer da leitura, pode nós lembrar muito de um outro clássico, A Piada Mortal, pois ambas as estorias partem do pressuposto onde um homem bom pode se tornar mau depois de uma tragédia ou pela influência do mundo que o rodeia.

Em 2012 foi lançada a versão de 50 anos do livro que eu particularmente indico aos Nerdákios que querem sentir um pouco a mais do gosto amargo e a incrível sensação que é ler Laranja mecânica. A versão de aniversário conta com  ilustrações exclusivas que dão um ‘Q’ a mais no desenvolvimento e aproximação com o universo em si, além é claro de um conjunto inédito de notas, esclarecimentos e ainda algumas recomendações culturais do próprio editor para que sua leitura seja um show de horror.

Imagem Capa do Texto Por: J.Kepler

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